Morre Keigo Higashino, mestre da literatura policial japonesa e autor de Galileo e Byakuyakou, aos 68 anos
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| Foto: Divulgação X/@higashinokeigo_ |
O escritor japonês Keigo Higashino morreu na madrugada de 23 de julho, aos 68 anos, em decorrência de um câncer colorretal. A informação foi anunciada nesta segunda-feira (27) pela editora Kodansha, através do perfil oficial do autor no X. O funeral foi realizado apenas com familiares, e a família pediu respeito à privacidade neste momento. Segundo a editora, uma cerimônia pública de despedida será realizada em data ainda a ser anunciada.
A morte encerra a trajetória de um dos escritores mais influentes da literatura japonesa contemporânea. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Higashino publicou 106 livros (sem contar obras em coautoria), vendeu cerca de 109 milhões de exemplares apenas no Japão e teve suas obras publicadas em 41 países e regiões, conquistando leitores muito além das fronteiras japonesas.
Autor de romances como A Devoção do Suspeito X, Byakuyakou, Na Loja Mágica de Namiya e da série Galileo, Higashino ajudou a transformar a literatura de mistério no Japão ao combinar enigmas cuidadosamente construídos com dramas humanos profundos. Seus livros deram origem a algumas das adaptações mais populares da televisão e do cinema japonês nas últimas décadas, aproximando seu trabalho de um público que muitas vezes conheceu suas histórias primeiro pelas telas e só depois pelos livros.
Da engenharia para a literatura
Keigo Higashino nasceu em 4 de fevereiro de 1958, na cidade de Osaka. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade da Prefeitura de Osaka, trabalhou durante anos como engenheiro antes de apostar definitivamente na carreira literária.
Seu início foi marcado por persistência. Depois de escrever diversos manuscritos enquanto conciliava o trabalho na indústria, venceu, em 1985, o 31º Prêmio Edogawa Rampo com o romance Hōkago, considerado um dos mais importantes prêmios para novos autores de romances policiais no Japão.
A conquista abriu as portas para uma carreira que atravessaria quarenta anos sem perder ritmo.
Diferentemente de muitos escritores especializados em romances de investigação, Higashino nunca se limitou à resolução de crimes. Seus livros exploravam culpa, sacrifício, desigualdade social, relações familiares, amizade e amor, frequentemente colocando os dilemas morais dos personagens acima do próprio mistério.
Essa combinação fez com que suas obras fossem lidas tanto por fãs do gênero policial quanto por leitores interessados em dramas humanos.
O fenômeno Galileo
Entre todas as suas criações, poucas alcançaram o impacto da série Galileo, iniciada em 1998.
Os romances acompanham o físico Manabu Yukawa, um professor universitário brilhante conhecido por solucionar crimes aparentemente impossíveis utilizando lógica e ciência. O personagem rapidamente se tornou um dos mais populares da literatura japonesa.
O sucesso explodiu em 2007, quando a Fuji TV adaptou a série para a televisão com Masaharu Fukuyama no papel principal e Kou Shibasaki como a detetive Kaoru Utsumi.
A série se transformou em um fenômeno de audiência, recebeu especiais de televisão, uma segunda temporada, diversos filmes e consolidou Galileo como uma das franquias policiais mais conhecidas do Japão.
Em 2008, o romance A Devoção do Suspeito X, terceiro livro da série, foi adaptado para o cinema. Considerado por muitos críticos e leitores a obra-prima de Higashino, o livro recebeu o Prêmio Naoki e posteriormente tornou-se o primeiro romance japonês indicado ao Edgar Award, principal premiação da literatura policial dos Estados Unidos.
Mesmo leitores que nunca acompanharam a franquia reconhecem o romance pelo desfecho marcante e pela maneira como subverte as convenções do gênero investigativo.
Obras que marcaram gerações
Embora Galileo seja sua criação mais conhecida internacionalmente, Higashino construiu uma bibliografia extremamente diversa.
Publicado em 1999, Byakuyakou tornou-se um dos romances mais aclamados do autor. A história acompanha dois jovens cujas vidas permanecem ligadas por um crime ocorrido na infância, em uma narrativa que atravessa décadas explorando culpa, violência, desigualdade e sobrevivência.
A adaptação para dorama, exibida pela TBS em 2006, tornou-se um clássico da televisão japonesa e é frequentemente lembrada entre os melhores dramas produzidos no país.
Outro grande sucesso foi Ryuusei no Kizuna, publicado em 2008 e adaptado para a televisão no mesmo ano. Misturando suspense, drama familiar e humor, a obra consolidou ainda mais a reputação do escritor como alguém capaz de equilibrar entretenimento e profundidade emocional.
Entre seus romances mais conhecidos também estão Na Loja Mágica de Namiya, uma história sensível sobre cartas, arrependimentos e esperança; A Maldição do Ouro, Malice, Journey Under the Midnight Sun (título internacional de Byakuyakou), além da série protagonizada pelo detetive Kyōichirō Kaga, que originou adaptações como Shinzanmono.
Ao longo da carreira, Higashino transitou por suspense psicológico, ficção científica, dramas familiares e histórias de fantasia, sempre mantendo o interesse pelos conflitos humanos.
Um escritor que conquistou leitores e espectadores
Poucos autores japoneses tiveram uma relação tão próxima com a televisão e o cinema.
Diversas obras de Higashino foram adaptadas para doramas de sucesso, entre eles Galileo, Byakuyakou, Ryuusei no Kizuna, Shinzanmono, Himitsu, Henshin, Bunshin, Kiken na Venus e a antologia Higashino Keigo Mysteries.
No cinema, seus romances também ganharam inúmeras adaptações japonesas e internacionais.
Esse sucesso audiovisual contribuiu para apresentar sua literatura a uma nova geração de leitores. Não era raro que espectadores procurassem os romances originais após assistirem aos doramas ou filmes, ampliando ainda mais o alcance de sua obra.
Apesar desse enorme sucesso comercial, Higashino raramente aparecia em público. Reservado, preferia que seus livros ocupassem o centro das atenções.
Reconhecimento dentro e fora do Japão
Além do enorme sucesso de vendas, Higashino acumulou um dos currículos mais respeitados da literatura japonesa moderna.
Ao longo da carreira recebeu, entre outros, o Prêmio Edogawa Rampo, o Prêmio Naoki, o Prêmio da Associação Japonesa de Escritores de Mistério, o Prêmio Yoshikawa Eiji de Literatura, o Prêmio Kikuchi Kan, a Medalha da Fita Roxa e o Grande Prêmio de Literatura de Mistério do Japão.
Suas obras foram traduzidas para dezenas de idiomas e publicadas em 41 países e regiões.
Em 2023, ultrapassou a marca de 100 livros publicados e de 100 milhões de exemplares vendidos no Japão. Atualmente, sua circulação doméstica chega a aproximadamente 109 milhões de cópias, um número raro mesmo entre os maiores nomes da literatura japonesa.
O último romance
Mesmo após quatro décadas de carreira, Higashino seguia escrevendo.
No início de junho, a editora Bungeishunju anunciou Eien no Kioku, previsto para chegar às livrarias em 5 de agosto.
O romance marca o retorno da série Galileo e foi apresentado pela editora com o slogan "Galileo, o último mistério". Na época, a frase fazia referência ao encerramento de um ciclo envolvendo o personagem Manabu Yukawa.
Após a morte do escritor, porém, a campanha ganhou um significado inesperado.
O livro será publicado pouco mais de uma semana após sua morte e passa a representar o encerramento definitivo da carreira de um autor que dedicou quarenta anos à literatura.
Um legado que permanecerá
A história da literatura japonesa possui nomes incontornáveis em diferentes gêneros. No romance policial, poucos exerceram influência comparável à de Keigo Higashino.
Seus livros ajudaram a popularizar o gênero entre leitores que normalmente não consumiam histórias de investigação, demonstrando que um romance policial podia ser, ao mesmo tempo, um quebra-cabeça intelectual e um retrato profundamente humano.
Mais do que revelar culpados ou surpreender com reviravoltas, suas histórias buscavam compreender pessoas. Em muitos de seus romances, o verdadeiro mistério nunca foi apenas descobrir quem cometeu um crime, mas entender por que alguém chegou àquele ponto.
É essa capacidade de equilibrar lógica, emoção e humanidade que explica por que suas obras continuam sendo traduzidas, adaptadas e redescobertas por novas gerações.
Keigo Higashino deixa uma uma obra de mais de cem livros e um legado que ultrapassa números de vendas, prêmios ou adaptações.
Deixa personagens que permanecerão vivos na memória de milhões de leitores, mistérios que continuarão sendo desvendados por novas gerações e histórias que consolidaram seu nome como um dos maiores escritores japoneses de seu tempo.

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